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A submissão da sociedade a
impostos absurdos e ilógicos, à sua revelia, com a conseqüente
inibição do empreendedorismo, crescimento econômico sustentado
e justiça social, é o resultado do desmedido e descontrolado
avanço do poder político na história recente do Brasil.
Como a discussão da questão
tributária sob o ponto de vista técnico-jurídico vem sendo
feita à exaustão, com soluções já conhecidas, sem que se
consiga sensibilizar a classe política sobre a premência da
racionalização tributária para o bem-estar do país, fixaremos
o foco na atuação do poder político e nas distorções que vem
implantando para se expandir sem restrições e atender aos
interesses que o patrocinam, em prejuízo dos interesses
maiores da coletividade.
A carga tributária, os planos
econômicos, o avanço
do poder político e a desagregação social
Historicamente no Brasil a carga tributária sempre foi
crescente, mas de lenta progressão, porque o poder político
avança na razão inversa da estruturação da sociedade. Quanto
mais sólidas as instituições, menos vulnerável a sociedade e
mais capaz de se defender.
Os planos
econômicos tiveram um papel imprescindível para o desmedido
avanço do poder político, permitindo seu crescimento
exponencial em curto espaço de tempo, porque ao mesmo tempo em
que aumentaram seu poder de fogo, pela concentração de renda
advinda do conhecimento prévio das medidas econômicas,
desestabilizaram e fragilizaram a sociedade pela disseminação
da miséria, falta de perspectivas e desarticulação das
instituições.
Considerando os objetivos declarados, ou seja, proporcionar
bem-estar econômico duradouro, todos os planos fracassaram.
Sob esse aspecto, se algum deles tivesse logrado sucesso os
subseqüentes teriam sido desnecessários.
Já pelo
prisma dos objetivos reais, todos os planos foram
bem-sucedidos e atingiram os resultados pretendidos: intensa
concentração de renda nas mãos da elite política e econômica;
crescimento geométrico das dívidas externa e interna;
ineficiência da economia; diminuição do poder aquisitivo
geral; aniquilação da classe média; deterioração da Justiça,
da educação, do sistema de saúde e da Previdência Social;
inviabilização da justiça social; aumento da criminalidade e
violência.
Os planos econômicos, a inviabilização
da
Justiça e do estado de Direito
O Direito é a regra do jogo, e a menos que
haja uma regra que se sobreponha a quaisquer casuísmos, e por
cujos princípios se tenha devoção, não é possível construir
uma sociedade estável e que se desenvolva sadiamente. Aos
profissionais do Direito, portanto, compete não apenas zelar
pela boa técnica jurídica, como também pela sua aplicação na
construção de alicerces sólidos para a convivência humana.
Talvez por ter
sido aluno de juristas como Goffredo da Silva Telles Junior e
Fábio Konder Comparato, formei-me com essas premissas em
mente, em 1985. Assim, assisti perplexo à edição do Plano
Cruzado em 1986, já com suficiente discernimento para perceber
que se iniciara a demolição da Justiça como instituição no
Brasil, o que pude acompanhar na prática diária.
A situação que melhor expressou a
indignação que eu sentia ao ver reduzidos a pó os princípios
jurídicos foi-nos proporcionada por um professor da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo. Logo após o Plano
Collor, quando o governo editou a medida que vedava ao Poder
Judiciário manifestar-se liminarmente contra o plano, o
referido professor entrou na sala de aula e disse aos alunos:
- Tudo o que eu ensinei a vocês até hoje não faz sentido.
A seguir virou as costas e foi embora, sem dar aula naquele
dia. Li sobre o ocorrido nas páginas de O Estado de São
Paulo e telefonei à faculdade para lhe dar os parabéns
pela lucidez e coerência.
Rudolf Steiner, filósofo austríaco
do início do século XX, destacava em sua teoria da
trimembração social que no nível político-jurídico da
sociedade somente a igualdade nas relações pode
conduzir ao seu desenvolvimento sadio. Ora, igualdade é tudo o
que nos falta! Vivemos sob um Estado que não se impõe o que
impõe ao cidadão e se permite o que a ninguém mais é
permitido, e isto produz uma deficiência insanável que vai
corroendo o tecido social.
Tanto o Plano Cruzado como os que
se seguiram alteraram a ordem jurídica de forma espúria,
traiçoeira, unilateralmente e sempre interferindo de má-fé nas
relações privadas. O governo nunca cumpriu a sua parte, o que
seria inconcebível em qualquer lugar onde houvesse tradição
jurídica.
Isso carreou à estrutura do Poder
Judiciário uma avalanche de processos e inviabilizou a sua
atuação efetiva. Estimo que o número de causas de 1986 até
hoje tenha sido multiplicado vinte vezes, para uma estrutura
judiciária que aumentou pouco. Ou seja, o Poder Judiciário
teve seus quadros exauridos para dar andamento a um imenso
contingente de processos, em sua grande maioria envolvendo
questões menores, enquanto a defesa dos princípios
constitucionais e do estado de Direito ficou em segundo plano
por absoluta falta de condições materiais. Sem editar nenhuma
medida formal nesse sentido, o poder político conseguiu
desestabilizar o Poder Judiciário, e daí para diante não teve
mais obstáculos à sua contumaz ação de má-fé, seja na
economia, na área tributária ou mesmo perante a Justiça.
Afirmo sem hesitação que o Brasil
está agora mais distante do estado de Direito do que em 1970.
Hoje o governo, seja ele qual for, não tem nenhum pudor em
praticar ações que fariam quaisquer dos membros da junta
militar de outrora corar de vergonha. Aliás, essa palavra
parece não mais existir nos meandros da classe política. Nas
décadas de 60 e 70 havia um regime de exceção jurídica
formal, que cometia seus abusos de forma localizada e
delimitada, enquanto o país como um todo funcionava. O governo
não questionava decisões judiciais além dos limites
processuais, apenas as cumpria. Hoje, vivemos em plena
ditadura informal, e, se não há violência física, no
entanto perpetram-se violências muito maiores através da
manipulação da sociedade e da informação. O poder político
percebeu que é mais fácil, eficiente e eficaz direcionar
redações com verbas de publicidade do que com sensores
armados!
Nos tempos da ditadura formal
havia um algoz declarado, um arbítrio formal que
poder-se-ia combater na esperança de construir um país melhor.
Hoje, o que se pode fazer diante de um arbítrio informal?
Observe bem, leitor: não estou em
hipótese alguma defendendo o que ocorreu no país durante a
ditadura formal. Apenas não vejo a situação atual como
contraponto àquela outra situação, mas como seu dedobramento
natural, em que os mesmos motivos e interesses que então
embasaram a brutalidade física e jurídica continuam presentes
e avançam em seu domínio, agora de forma mais sutil, sob a
fachada de democracia e com ainda maior brutalidade jurídica.
Vivemos, em tese, em uma
democracia e sob estado de Direito.
No primeiro caso, não há nada além
de relativa liberdade de expressão, condição necessária
mas não suficiente para configurar a democracia. Para que
houvesse democracia precisaríamos dispor de instituições aptas
a assegurar que o que vem à tona em virtude da liberdade de
expressão produzisse mudanças reais. E sabemos que isso não
ocorre, pois não há instâncias que se sobreponham ao poder
político.
No segundo caso, o poder político
muda as regras do jogo a seu bel-prazer e em benefício
próprio, simplesmente ignorando os compêndios jurídicos. O
estado de Direito não passa de aparência. A conclusão
inexorável é a de que estávamos mais próximos do estado de
Direito sob a ditadura formal! Hoje vivemos sob uma
ditadura informal, onde o poder político explora e
manipula o cidadão com requintes de sutileza tão perversos que
fazem os algozes ostensivos do passado assemelharem-se a
crianças inocentes.
A Constituição de 1988, a deterioração
da atividade legiferante, a implosão do ordenamento jurídico e
o cerceamento do Poder Judiciário
Como resultado
das distorções políticas geradas nas eleições de 1986 pelo
fantasioso e efêmero “sucesso” do Plano Cruzado, tivemos uma
assembléia nacional constituinte alheia à boa técnica
jurídica, primando por ignorar os interesses coletivos e de
longo prazo para privilegiar os interesses individuais e de
curto prazo. Os legisladores procuraram avidamente deixar suas
contribuições
no texto constitucional, como marcas registradas dos que os
patrocinavam, eivando-o de questões, conceitos e minúcias que
seriam mais bem abrigados em legislação infraconstitucional.
Assim surgiu a atual Constituição, uma colcha de retalhos de
interesses individuais, tecnicamente inadequada, que expandiu
as dimensões do sistema federativo para além do suportável,
produziu sérios desequilíbrios fiscais e inviabilizou o país.
A partir daí a
atividade legiferante passou a se distanciar gradativamente da
técnica jurídica e o poder político suplantou o bom senso com
o uso indiscriminado de medidas provisórias. O ordenamento
jurídico deixou de ser um todo coerente para implodir em
contradições.
O reflexo fez-se sentir no dia a
dia dos operadores do Direito, que passaram a despender mais
tempo, energia e atenção do que dispunham e seria razoável na
vã tentativa de permanecer atualizados frente à balbúrdia
legislativa. Atolados em infindável profusão de normas,
perderam de vista a relação de causalidade entre a atuação
política dos governantes e as dificuldades crescentes que
encontram no exercício da atividade jurídica a partir de
1986.
Sem o
distanciamento necessário para enxergar essas dificuldades em
um contexto sistêmico, tende-se a
priori a atribuir as suas
causas ao Poder Judiciário, quando na verdade ali se observa
apenas o efeito visível da falta de igualdade que o poder
político imprime à atuação do Estado, impondo à sociedade o
que ele mesmo não se impõe e se permitindo o que a ninguém
mais é permitido.
Embora sejam autônomos e não haja
subordinação recíproca, os poderes Executivo, Legislativo e
Judiciário são interdependentes, fazem parte do mesmo
organismo. Não se pode admitir que ajam sem sintonia, pois a
atuação irresponsável de qualquer um deles produz
conseqüências no âmbito dos demais.
É o que tem
acontecido ao Poder Judiciário, feito refém da atuação da
classe política nas esferas executiva/legislativa e
informalmente impedido de lhe obstar os abusos devido ao
brutal aumento de demanda por prestação jurisdicional
produzido pela interferência do poder político na vida
cotidiana do país.
A discussão sobre o controle
externo do Poder Judiciário somente desvia o foco do problema
real. Na verdade, o que o poder político busca com isso é ir
um passo além no cerceamento informal já existente, para
formalizá-lo.
Os argumentos apontados para
justificar a necessidade da medida são em suma a morosidade da
Justiça e a existência de corrupção em seus quadros. Ora,
oitenta por cento dos processos hoje em andamento no país tem
como parte o governo em algum de seus níveis (federal,
estadual, municipal), como fruto de anos e anos de má-fé
crescente no uso de recursos com fim procrastinatório.
Modifique-se essa postura e o Poder Judiciário voltaria a dar
conta da demanda com agilidade e eficiência. Quanto à
corrupção, há que apurar e eliminar as ocorrências, mas
enquanto no Judiciário elas são apenas pontuais e ocasionais,
no Executivo e no Legislativo são epidêmicas, comprometendo
toda a estrutura. Melhor atenderia ao interesse da nação,
portanto, falar em controle externo do Poder Executivo e do
Poder Legislativo.
A sociedade
deve permanecer atenta. Se prosperarem os esforços para
implantar o controle externo do Judiciário, o poder político e
o interesse individual crescerão com desenvoltura hoje
inimaginável, resultando em mais abusos e prejuízos para a
coletividade.
A carga tributária, a irresponsabilidade
fiscal da Constituição de 1988 e as contribuições sociais
irracionais
Em 29/12/2002, às vésperas da
assunção do atual governo, Daniel Piza prenunciou no jornal
O Estado de São Paulo, à página D3: Por que não me
ufano? Porque todo governo no Brasil, diga-se de direita ou de
esquerda, seja em que nível for, só faz aumentar impostos.
E, de fato, em 2004 a carga
tributária já beira inacreditáveis 40% do PIB, montante
incompatível com a renda per capita nacional e pelo
menos 15% acima do limite aceitável. Então, por que os
impostos chegaram a esse patamar e vão continuar subindo?
Em essência, devido às despesas
permanentes fixadas na Constituição de 1988, pura e ruinosa
irresponsabilidade fiscal. Somente para financiar as despesas
obrigatórias, em torno dos 33% do PIB, é preciso arrecadar 70%
a mais que a carga tributária da Argentina ou do México! E
ainda há as demais despesas, não tão rígidas mas nem por isso
tratadas com maior cuidado.
Para atender ao elevado nível de
despesas foram criadas as contribuições sociais irracionais,
como PIS, COFINS e CPMF, com graves conseqüências sobre a
cadeia produtiva e a eficiência da economia.
Se as despesas têm de ser
financiadas pela arrecadação, o que impede que se faça frente
a elas com um sistema tributário racional, benéfico a todos,
que estimule a atividade econômica, desonere a sociedade do
fardo burocrático e proporcione receita equivalente, ainda que
percentualmente menor?
Entendendo a lógica por trás dos
impostos
absurdos e ilógicos
Há muito tempo ouvimos falar da
necessidade de uma reforma tributária que racionalize e
simplifique o sistema (se é que se pode chamá-lo assim)
tributário vigente. É uma condição sine qua non para
tornar este país viável internamente e, por conseguinte,
perante a competição internacional. No mundo dos negócios há
até um termo para se referir ao acréscimo de custos em
investimentos realizados por aqui, devido à complexa
burocracia, carga tributária elevadíssima, insegurança
jurídica e instabilidade das instituições, tornando-os
temerários e afastando-os. É o custo Brasil.
No entanto, a expressão reforma
tributária tem sido usada pelo poder político de forma
capciosa nos últimos anos, sempre com o objetivo declarado de
reduzir impostos, mas na prática aumentando-os. O procedimento
é sempre o mesmo: anuncia-se uma medida que traria benefícios
ao contribuinte, mas também prejuízos. Começa-se a discuti-la
no Congresso e, quando todos já se acostumaram à idéia,
suprimem-se os benefícios e o contribuinte tem de arcar com os
prejuízos.
Foi assim há cerca de dez anos com
a idéia do imposto único, que, pelas estimativas da época, com
uma alíquota de 2% poderia proporcionar o mesmo nível de
arrecadação de todos os outros impostos juntos, e ainda trazer
facilidades e estabilidade jurídica, pois extinguiria a
burocracia fiscal e os problemas associados. De repente, sem
pudores, aquele que seria sozinho a salvação da pátria
vira mais um imposto?!
Não importa
qual o motivo por trás de um novo imposto, ele não se
justifica. Já atingimos o ponto de saturação e o precedente
histórico nos autoriza a crer que não será usado para o fim
declarado. A sociedade anseia por representantes
suficientemente criativos para resolver os problemas
orçamentários sem recorrer a aumento de impostos, pois para
isto não se exige nenhuma qualificação especial, qualquer um
pode fazê-lo. Mas não podemos subestimar a criatividade da
classe política para o que lhe convém.
No caso da CPMF, por exemplo, o
nome contribuição não a descaracteriza como imposto, a
menos que fosse facultativa, como se bastasse outra
denominação para torná-la menos prejudicial! Mas a brincadeira
não parou por aí. Após sucessivas reedições, praticamente
eternizando o provisório e aumentando a alíquota, o poder
político lesou fundo o estado de Direito e marcou mais um
tento ao franquear à Receita Federal – parte interessada na
relação tributária, e não órgão eqüidistante – o acesso aos
montantes individuais de recolhimento do imposto pelos
correntistas das instituições financeiras, pondo fim ao sigilo
bancário no Brasil.
Do ponto de
vista dos interesses maiores do país (estímulo ao
empreendedorismo, crescimento econômico sustentado e justiça
social) impostos absurdos e ilógicos, ou, no dizer de Joelmir
Beting, impostos asininos, são sem sentido. Não se
justificariam ainda que pela ótica meramente arrecadatória do
fisco, pois uma considerável redução da carga tributária em
virtude de um sistema racional redundaria em aumento de
arrecadação, tanto pelo estímulo à atividade econômica como
porque abaixo de determinado patamar não vale a pena
permanecer na informalidade ou manter a estrutura para
sonegar. Isto é intuitivo. Todos sabemos e o governo
seguramente também sabe. Então, por que não o faz?
Em primeiro lugar, porque o poder
político perderia capacidade de persuasão. Hoje, devido às
contradições do ordenamento jurídico, cujas causas já
analisamos, é impossível estar totalmente dentro da lei.
Quando consultado, muitas vezes nem mesmo o poder público sabe
qual é a lei a ser cumprida, embora sempre o saiba no momento
de autuar o cidadão por descumpri-la. Isto significa que não
há segurança jurídica. A qualquer desafeto do governo ou a
quem questione impostos na Justiça pode ser impingida uma
auditoria fiscal abrangente, que sempre redundará em autuação,
porque sendo impossível seguir a lei sempre há por onde pegar
o contribuinte. Se a lei fosse clara e o pagamento correto dos
impostos, viável, perder-se-ia este poderoso instrumento de
convencimento político.
Em segundo lugar, porque há toda
uma estrutura vivendo da realidade da sonegação, o que seria
impossível se os impostos fossem razoáveis, viáveis, e todos
pudessem pagá-los corretamente. É de se esperar que o lobby
para manter tal estado de coisas seja fortíssimo.
Em terceiro
lugar, imagine por um instante, num momento de fé e
descortino, como seria a sua vida se os impostos fossem
honestos, simplificados e todos os pagassem: quase nenhuma
burocracia, nada de intimidações, estabilidade jurídica,
ambiente favorável a empreendimentos, prosperidade e bem-estar
para todos. Os cidadãos teriam tempo e condições para ler,
informar-se, pensar, refletir. Tornar-se-iam mais conscientes,
logo, mais exigentes. Na hora de votar, fariam-no de forma
muito mais criteriosa. Seria o fim da irresponsabilidade nas
carreiras políticas.
Esses são alguns dos
interesses imediatos que impedem a adoção de um sistema
tributário racional, benéfico à sociedade como um todo.
O
descaso pelo dinheiro público, a impunidade
e a necessidade de controles efetivos
As despesas
são elevadas e isso demanda impostos exorbitantes, ainda mais
danosos devido à irracionalidade. Para chegar a esse ponto
foram necessárias décadas de descaso pelo dinheiro público e
total impunidade.
Segundo o economista Milton
Friedman, há quatro formas de gastar dinheiro, levando em
conta o dono do dinheiro e o beneficiário: pode-se gastar
dinheiro próprio para si, dinheiro próprio para outros,
dinheiro de outros para si e dinheiro de outros para outros.
Cada uma dessas quatro situações implica em postura
interior diferente em relação a preço e qualidade.
Assim:
-
quando alguém gasta dinheiro
próprio para si, considera preço e qualidade;
-
quando alguém gasta dinheiro
próprio para outros, considera preço e desconsidera
qualidade;
-
quando alguém gasta dinheiro de
outros para si, considera qualidade e desconsidera preço;
-
quando alguém gasta dinheiro de
outros para outros, desconsidera preço e qualidade.
Sem dúvida isto reflete a natureza
humana lidando com o dinheiro.
A quarta possibilidade, ou seja,
gastar dinheiro dos outros para os outros, com a decorrente
desconsideração a preço e qualidade, é a situação dos gastos
públicos.
Como o
poder público atua através das pessoas que ocupam as funções
públicas, e não como entidade abstrata, e já que essas pessoas
não perdem suas vicissitudes humanas pelo fato de exercer tais
funções, sem controles efetivos que transcendam o aspecto
meramente formal, facilmente contornável, não há como esperar
eficiência no uso do dinheiro público. A possibilidade de
estabelecer esses controles é inversamente proporcional à
desenvoltura do poder político.
A
malversação do dinheiro público é sempre danosa, em qualquer
parte, mas quando há excedentes o prejuízo não é sentido de
imediato. No Brasil, coibir a corrupção tornou-se imperativo
de sobrevivência, porque o país está no limite, não dispõe de
excedentes e não tem de onde tirar mais recursos.
A
arrecadação, a omissão e a propaganda
A imprensa tem noticiado
sucessivos recordes de arrecadação obtidos pelo governo, que
sempre os justifica com base no aumento de impostos e da
atividade econômica. Sem dúvida o aumento de impostos
desempenha papel importante na configuração desses números,
mas o que se atribui à recuperação da economia não passa do
aperfeiçoamento da máquina arrecadatória, sempre crescendo em
eficiência e avançando sobre a informalidade.
O dinheiro que o Estado tira da
sociedade sob forma de impostos jamais retorna a ela. Ao
contrário, gera desenvolvimento no exterior, para onde vai
seja devido à corrupção, seja devido à amortização da
crescente dívida externa. Apenas nos oito anos do último
governo essa dívida aumentou dez vezes, apesar das
privatizações, com crescimento proporcional nos gastos para
amortizá-la. Diante desse quadro, não é desarrazoado dizer que
a informalidade talvez seja um dos sustentáculos que mantém
este país em pé.
O que se observa com os próprios
sentidos, a despeito do propalado pela imprensa, é que os
sucessivos aumentos de arrecadação são acompanhados de
deterioração proporcional na qualidade de vida. Os recordes de
arrecadação do governo só encontram paralelo em seus próprios
recordes de omissão.
É comum as
pessoas terem a percepção de que no passado trabalhava-se bem
menos do que hoje. Há duas ou três gerações atrás, eram
normais famílias com dez filhos. Embora em geral não houvesse
luxo, era relativamente fácil mantê-las dignamente, mesmo
exercendo atividades sem maior sofisticação.
Qual a
causa disso? O poder aquisitivo geral era muito maior, devido
à muito menor sangria que o Estado produzia no produto interno
bruto e à melhor distribuição de renda.
Se no passado já houve o
welfare State, hoje dispomos de um novo modelo, o
Estado-parasita, sob o qual o cidadão compartilha somente os
prejuízos e jamais os lucros. Assim, nunca há motivos para
comemorar o desempenho estatal, quando positivo. O cidadão tem
a percepção – real – de que só tem ônus por ter nascido no
Brasil.
À medida que o poder político
dispõe de mais recursos e desenvoltura, também aumenta os
gastos com propaganda para encobrir suas deficiências na
condução da sociedade. Os gastos de um governo com propaganda,
portanto, ocorrem na razão inversa de sua ação efetiva. E por
um motivo muito simples: quando a ação é efetiva, ela já é
a própria propaganda.
Atualmente o poder político faz
uso escancarado de profissionais de marketing,
remunerados a peso de ouro para elaborar imagens e demonstrar
o indemonstrável. Não há nenhuma preocupação, esforço ou
compromisso para que a imagem corresponda à realidade. São
apenas artifícios para ganhar eleições e elevar índices de
popularidade.
Se há ênfase demais na aparência é
porque não há essência. À semelhança dos indivíduos, pode-se
avaliar a pequenez dos governos pelo esforço que fazem para
parecer grandes. Quem de fato é não precisa mostrar: quando o
poder público anuncia muito, não está agindo como deveria.
Indivíduos cuja imagem foi
construída somente sobre encenações, sem lastro real, mais
cedo ou mais tarde acabam-se defrontando com o fato de ser uma
fraude, ainda que o mantenham oculto da sociedade. Em sua vida
interior essa nódoa estará sempre presente, impelindo-os à
infindável e vã busca de poder para furtar-se, ao menos
temporariamente, ao contato com a realidade inexorável.
Monitorando o funcionamento
cerebral através de ressonância magnética, cientistas ingleses
constataram que o indivíduo mentiroso consome duas vezes mais
energia que o indivíduo veraz, pois além de ocultar a verdade
precisa criar a mentira. Não seria por razão moral, portanto,
que as religiões recomendam a prática da veracidade. Trata-se
de potenciação dos próprios recursos, economia de energia
indispensável para possibilitar o desenvolvimento da condição
humana.
Todos ganharíamos, pois, se a
classe política se conscientizasse que é muito mais fácil ser
do que parecer. O custo pessoal e social da mise-en-scène
é proibitivo.
Os
meios de comunicação, o poder político e
as verbas de publicidade
Salvo raras
exceções, os meios de comunicação são organizados na forma de
empresas privadas com finalidade de lucro ou, em menor escala,
pertencem ao Estado. Neste último caso, já estão sob a
influência direta do poder político.
No primeiro caso, a finalidade de
lucro torna os meios de comunicação sensíveis aos interesses
dos grandes anunciantes. O grau dessa sensibilidade depende de
uma série de fatores, podendo variar da simples omissão ou
tratamento discreto e superficial de um assunto proibido,
nas situações de menor envolvimento, até a elaboração de
matérias francamente favoráveis a interesses do anunciante,
nos casos de maior envolvimento.
Com a concentração de renda nas
mãos do poder político e do Estado, decorrente dos planos
econômicos, e o aumento substancial das verbas de publicidade,
estes passaram a ter peso significativo no faturamento dos
meios de comunicação e a exercer influência sobre a linha
editorial.
Quem quer
que tenha o costume de escrever às seções de leitores da
imprensa, ainda mais se já o fazia antes de 1986, sabe que até
então os periódicos publicavam as cartas dos leitores na
íntegra, com total fidelidade, inclusive reproduzindo seus
erros de português. Por volta de 1990, começaram a ser
inseridas notas no rodapé das seções de leitores, com textos
variando ligeiramente de um periódico para outro mas em suma
advertindo sobre o direito de resumir as cartas e
selecioná-las para publicação, a critério da redação.
No Brasil vige relativa
liberdade de expressão. Embora o cidadão possa dizer o que
queira, a sua possibilidade de disseminar idéias a um universo
significativo de pessoas esbarra no acesso seletivo aos meios
de comunicação. Se as questões abordadas pelo leitor tocam em
pontos nevrálgicos dos interesses do poder político e do
sistema, a probabilidade de vê-las publicadas, ou mesmo
publicadas sem distorções, é muito pequena.
Isto não quer dizer, no entanto,
que não se publiquem críticas a interesses resguardados. Até
para que haja a aparência de democracia e plena liberdade de
expressão, surgem textos contrários, porém nunca abordando
pontos-chave para a compreensão do jogo pelos leitores.
Em situações extremas, quando o assunto é classificado como
proibido, não há menção em parte alguma.
A mera seleção das manifestações
recebidas pelo órgão pode passar ao leitor uma imagem da
realidade completamente oposta à constatada pela redação.
Basta alterar a proporção entre cartas pró e contra
determinado assunto. Como em um passe de mágica, a opinião
pública mudou de opinião... Este raciocínio é válido para
qualquer meio de comunicação.
Até pouco antes da era Collor
havia em muitos periódicos seções onde se publicavam, sem
ônus, extensos artigos sobre os mais variados assuntos, com
total liberdade, sem restrições. Eram verdadeiros púlpitos
para a manifestação de cidadãos que de outra forma não
poderiam levar suas experiências e visões ao conhecimento
público. No jornal O Estado de São Paulo, por exemplo,
havia a seção Idéias em debate. Em torno de 1990 essas
seções desapareceram da imprensa brasileira.
O cidadão médio, comum, tem um
ardente anseio por fazer o que supõe estar fazendo a grande
maioria das pessoas, ou ser aquilo que supõe ser a maioria. O
único meio disponível para conhecer as tendências de
comportamento de um número maior de indivíduos são os meios de
comunicação.
Da
combinação desses dois fatores, conclui-se que o povo é a
caixa de ressonância da imprensa. E assim o poder político
pode conduzir a opinião pública a seu bel-prazer através da
influência sobre os meios de comunicação.
No caso das
emissoras de rádio e televisão o poder político ainda dispõe
de outro instrumento para as direcionar, além das verbas de
publicidade: a necessidade de concessão estatal, deixando-as
ao capricho dos ânimos vigentes.
Comparados
à superestrutura de comunicação de que o poder político dispõe
atualmente, o Departamento de Imprensa e Propaganda da
ditadura getulista ou o Ministério da Propaganda do III
Reich seriam coisas de criança.
O
poder e a dominação política
Quando um indivíduo acumula
recursos materiais a ponto de superar o patamar da
sobrevivência – aquele nível em que tem a sobrevivência
assegurada, não importa o quanto gaste e o quanto viva –
pode-se dedicar com todas as forças à obtenção, ao exercício e
à manutenção do poder.
Quem não se sente inferior não
precisa se sentir superior. A necessidade de poder decorre de
deficiência do ego, do sentimento de inferioridade que impele
o indivíduo a buscar desesperadamente a sensação de
superioridade. Sendo uma necessidade imaterial, jamais poderá
ser satisfeita com bens materiais, não importa o quanto se
acumulem.
Com a
concentração de recursos em mãos do poder político, como
decorrência direta dos planos econômicos, toda uma elite ficou
liberada para atuar em tempo integral na manutenção do poder.
Por isso a
classe política sempre dispõe de projetos de poder, mas
raramente de projetos de governo. O que se discute nos
gabinetes palacianos tem menos relação com resolver os
problemas do país do que com projetos pessoais e a forma de
concretizá-los com a mínima repercussão negativa perante a
opinião pública.
Nesse
sentido a classe política é absolutamente coesa, para além das
aparentes diferenças partidárias e ideológicas. Sempre
trabalha em bloco para assegurar que o bolo permanecerá
consigo. Depois, isso garantido, pode se engalfinhar
internamente para dividi-lo.
Às vezes
vale a pena ler as colunas sociais para constatar quão
freqüente é a confraternização entre políticos que, não
importa o quanto se esfolem à frente das cortinas, estão
sempre unidos nos bastidores.
Ao cidadão comum, cuja
sobrevivência precisa ser conquistada dia a dia, faltam
parâmetros para avaliar o grau de maquinação a que os
indivíduos podem chegar ao ter assegurada a subsistência. O
cidadão sem referenciais de poder chega a considerar essas
possibilidades como fantasias, como teorias conspiratórias.
Talvez realmente não haja
conspirações o tempo todo e nem envolvendo todas as questões.
Mas haja trama ou não, o resultado final para a sociedade é o
mesmo, como decorrência da busca exclusiva, desenfreada e
simultânea do interesse individual e imediato por um enorme
contingente político totalmente dissociado do interesse
coletivo e de longo prazo.
A busca exclusiva do interesse
individual sem considerar as necessidades gerais, portanto
fora de contexto, atua no tecido social como a célula
cancerosa no organismo humano. Ela simplesmente desconsidera
as necessidades do organismo e deixa de cumprir o seu papel no
todo, reproduzindo-se embrionariamente e se transformando em
tumor. Obcecada apenas pelo seu interesse, pára de cooperar
para o bem-estar geral e, paradoxalmente, mata o organismo que
a mantém viva.
Qualquer semelhança com a fábula
da galinha dos ovos de ouro não é mera coincidência. Se a
classe política seguir nessa toada, muito em breve vai
sacrificar a galinha...
A
Copa do Mundo, as eleições e a
manipulação da sociedade
Intencionalmente ou não, há muito tempo Copa do Mundo e
eleições no Brasil ocorrem no mesmo ano. Até julho não se
pensa ou fala em outra coisa além de futebol, e quando
finalmente as atenções do país se voltam a Brasília... a
legislação que vai reger o pleito já está toda aprovada!
Cada um tem
o direito de buscar a atividade de lazer que lhe aprouver, mas
a importância que se dá ao futebol neste país é totalmente
desmedida em relação aos seus desdobramentos práticos na vida
cotidiana. Em nome desse exagero tão bem estimulado pela
mídia, deixam-se de lado preocupações com questões decisivas
para a configuração do nosso bem-estar.
Vem-me à mente a imagem de uma
fila indiana de 240 milhões de pessoas caminhando mansamente
para o precipício, mas felizes (ou melhor seria iludidas?)
porque o país ganhou mais um título mundial de futebol.
Acorda, Brasil!
Não me enganei com a cifra
populacional. Um observador atento nota que as cidades têm
crescido muito além dos números divulgados, ainda que se
considere a ocorrência de migração. Se fossem utilizados
números reais, os índices de desempenho tão orgulhosamente
ostentados pelos governos teriam de ser revistos e
despencariam.
Já dizia Aristóteles, há mais de
dois mil anos: quem não observa o seu passado, está fadado
a repeti-lo. Portanto acautele-se, cidadão. O precedente
histórico, em especial o mais recente, recomenda reserva antes
de aceitar como verdadeira qualquer afirmação que venha do
poder político, a menos que possamos aferi-la pela observação
direta através dos próprios sentidos.
Algumas
percepções
À luz da lógica, ou mesmo do bom senso, nunca consegui
entender o que se passa no Brasil. Um dia dei-me conta de que
os objetivos declarados pelo poder político nunca são o
objetivo real!
Depois dessa constatação, e ao
passar a contemplar o que ocorre no país como o Grande
Teatro Brazil, em que o declarado é apenas a ponta
insincera de um imenso iceberg de fantoches, as coisas
começaram a se encaixar e a fazer algum sentido.
Também notei que vivemos a
Utopia de Thomas Morus às avessas, pois os objetivos reais
visam não permitir o desenvolvimento, o que, convenhamos,
seria relativamente fácil com todas as condições naturais
favoráveis, riquíssimas reservas minerais (inclusive imensas
jazidas de petróleo e ferro, como já alertava o grande
empreendedor e escritor Monteiro Lobato) e um povo tão
flexível, criativo e de índole pacífica, momentaneamente
violento pela pressão da miséria e da falta de perspectivas.
No Brasil pagamos impostos de
Primeiro Mundo e recebemos serviços públicos de Quinto Mundo.
Em países com carga tributária semelhante, os cidadãos têm
reciprocidade, pois pagam muito e em troca recebem do Estado
serviços de qualidade, como educação, saúde, previdência
social, justiça, segurança, alimentação, moradia etc.. Aqui,
na prática, para obter um arremedo daquele mínimo de dignidade
ficcionalmente descrito na Constituição como as necessidades a
serem atendidas pelo salário-mínimo, boa parte da população
despende todos os seus recursos.
A bem da verdade, existe um
objetivo não declarado da máquina estatal, sob o controle do
poder político, de exaurir o cidadão já na subsistência
básica, impedindo qualquer possibilidade de desenvolvimento
individual ou participação política, na medida em que ninguém
pode pensar em sutilezas enquanto se afoga no emaranhado
imperioso da subsistência. Enquanto isso, interesses que não
são os nossos encontram todas as condições propícias para
crescer em ritmo alucinante.
O que considero o pior não são os
hoje quase 40% do PIB sugados da sociedade a troco de nada,
mas o que decorre disso. Para a população obter os serviços
que deveria receber por conta dos impostos que paga, e que não
recebe, lá se vão pelo menos outros 25% do PIB. Pela
necessidade de manter estruturas para conviver com a
burocracia e a insegurança jurídica, seja no nível individual,
seja no empresarial, outros 30% do PIB vão para o ralo. Bem,
40% + 25% + 30% = 95% do PIB. Os 5% que restam são muito pouco
para fazer o país funcionar.
Se os coletores de impostos
pegassem o dinheiro que querem e nos deixassem viver... Mas a
estrutura tributária ainda atua como uma camisa de força a
impedir a regeneração das feridas que ela mesma cria. Como não
há segurança jurídica e o cidadão está sempre à mercê do
Estado, a sociedade como um todo fica permanentemente em
atitude defensiva. Somos espicaçados e perseguidos por aqueles
que nos deveriam estender a mão!
Anos e anos de práticas
traiçoeiras por parte do poder político criaram profunda
desconfiança na população. À primeira suspeita de novas
medidas econômicas a estrutura produtiva se retrai e aciona
mecanismos de proteção que inibem o desenvolvimento, em franco
prejuízo aos menos favorecidos.
Essa situação que vivemos no
Brasil pode ser fruto de tudo, menos da incompetência. Houve,
sim, muita competência para conduzir o Estado a tal estado de
surrealismo. O que não houve foi a intenção de fazer algo pela
população afeta, o que é um contra-senso absoluto, pois um
Estado só se justifica para o benefício de sua população.
Não se pode pretender que a classe
política, em qualquer lugar e em qualquer tempo, tenha feito
ou faça algo pelo povo que diz representar, pois seria esperar
o impossível. Nos países que funcionam, a classe política, se
por um lado não ajuda, por outro lado não atrapalha, deixando
a iniciativa privada trabalhar em paz e com um mínimo de
condições. Aqui não há limites, é uma puxada de tapete atrás
da outra. É para não funcionar mesmo! O paradoxo dos paradoxos
é que nós mesmos pagamos o salário daqueles que estão o tempo
todo maquinando como nos espoliar.
Fala-se em combater a
criminalidade com medidas policiais, como se a causa não fosse
a pura falta de perspectivas! Afinal, quando não há o que
perder nenhuma penalidade é capaz de exercer coerção. Na outra
ponta, essa mesma falta de perspectivas torna cada indivíduo
potencialmente corruptível. Será que é mesmo problema de
polícia? Claro que é preciso combater os efeitos, mas se as
verdadeiras causas – originadas no colarinho branco – não
forem extirpadas, tudo o mais é inócuo.
Em 31/12/2002, o astrólogo Oscar
Quiroga escrevia no jornal O Estado de São Paulo, à
página D2: Por que comemorar o início de um novo ano fiscal
onde o Estado nos extorquirá com maiores impostos sem nos dar
nada em troca? O que temos para comemorar quando nosso destino
é determinado pelos déspotas nos governos (...)?
A menos que a sociedade brasileira
desperte dessa letargia conformista, não é preciso ser
adivinho para saber que a sangria vai continuar, em flagrante
desrespeito ao ancestral e prudente conselho de Tibério César:
um pastor consciente e sábio naturalmente tosquia as
ovelhas, mas não as degola.
Afinal, o Grande Teatro Brazil
tem de continuar. The show must go on!
E, além de tudo, gastar o dinheiro dos outros é uma
delícia!
Perspectivas
Transcender a manipulação e compreender as causas reais da
situação em que vivemos é o primeiro passo para superá-la.
Mantendo o foco em fantasias não há nenhuma possibilidade
de mudar este estado de coisas. A partir do momento em que
temos compreensão real, então há alguma probabilidade
de mudança, ainda que no curto prazo só possamos observar e
nos indignar.
Cada um de nós, ao se fazer capaz
de enxergar a realidade por trás das aparências, atua como
precursor a tornar essa compreensão viável ao seu próximo.
Quiçá um dia o Brasil possa deixar
de ser um mero aglomerado humano exaurido para se transformar
em uma verdadeira nação, o país do futuro preconizado
por Stefan Zweig no século passado e que até hoje não passou
de figura de retórica.
Livros recomendados
- O outro lado do poder,
Claude M. Steiner, Nobel. Para a compreensão da necessidade de
poder, dos mecanismos utilizados em seu abuso e para se
defender, tanto no âmbito das relações pessoais e afetivas
como no âmbito das relações sociais e econômicas. O autor
mostra caminhos para transcender o poder, em busca de uma vida
plena e significativa.
- 1964: A Conquista do Estado –
Ação Política, Poder e Golpe de Classe, René Armand
Dreifuss, Editora Vozes. Para a compreensão das forças que
atuam no Brasil por trás dos atores visíveis, das convicções
políticas e ideologias. A obra não é mais editada e só pode
ser encontrada em sebos. Vale a pena procurar.
- jornalismo e desinformação,
Leão Serva, Editora Senac. Para entender que o procedimento
jornalístico impede a compreensão da realidade, e por isso
desinforma. Essa constatação ajuda a exercitar a capacidade de
observação e a elaborar juízos válidos a partir dela,
superando a dependência aos meios de comunicação.
- Democracia no terceiro
milênio, J. Vasconcelos, Nobel. Através de considerações
antropológicas, sociológicas, psicológicas, históricas,
econômicas e jurídicas, frutos de quarenta anos de pesquisas,
o autor demonstra que o sistema político-partidário e a
democracia representativa são as causas das agruras da
civilização contemporânea. E explica pormenorizadamente a
implantação dos verdadeiros sistemas democráticos
identificados pela ciência, estes sim meios idôneos para
conduzir a humanidade como um todo a uma situação de bem-estar
e desenvolvimento.
Nota
Na elaboração deste texto foram
consultados artigos, reportagens e cartas publicados no jornal
O Estado de São Paulo de 1985 a 2004.
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