|
O
presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Sepúlveda
Pertence, disse que seu grande desafio à frente da Justiça
Eleitoral é acabar com o abuso do poder econômico e político
nas eleições. Em entrevista ao jornalista Walter Lima, do
programa Revista Nacional, da Rádio Nacional, o ministro
Pertence informou que hoje, as eleições prestam com realidade
o que foi o voto do eleitor. "Agora, como se formou esse voto
é o grande desafio de torná-lo cada vez mais livre das
influências do poder político e do poder econômico. Este é um
desafio contra o qual o mundo inteiro ainda está muito
atrasado, e nós também", afirmou o ministro. Eis a íntegra da
entrevista:
P: Qual sua avaliação sobre as últimas eleições no Brasil?
R:
As últimas eleições culminaram em um processo que está
empenhada a Justiça Eleitoral. Mas em toda a sua história,
agora é que se acelerou com o estímulo à importância das
eleições como mecânica fundamental da retomada e da
consolidação do processo democrático a partir de 1985. Tivemos
em 1986 o grande passo, que foi o cadastramento informatizado
do eleitorado, eliminando na origem do sistema, que é o
registro dos eleitores, um imenso manancial de fraudes e, a
partir daí, a cada eleição dando um salto importante na busca
da lisura formal, absoluta das eleições. Em 1994, tivemos a
criação da rede nacional de captação, transmissão e
totalização dos resultados no menor tempo possível. A partir
daí não se viu mais a totalização paralela da imprensa, que
tinha sido em eleições anteriores uma imensa fonte de
inquietação, quem sabe, de manipulação de dados, lê-se caso
proconsult. Quando deixei, pela primeira vez, a presidência do
TSE, em 1994, eu já falava: um dia chegaremos à urna
eletrônica. Só não pensei é que oito anos depois tivéssemos
uma eleição totalmente eletrônica. Esse foi um êxito que
impressionou, porque temos o maior eleitorado ativo do mundo.
São quase 100 milhões de eleitores presentes, 406 mil urnas,
mais de 350 seções eleitorais e, em nenhuma delas, neste país
tão diversificado, se deixou de ter a urna funcionando na hora
exata, dando em poucas horas depois a totalização praticamente
fechada.
P: Para o eleitor, como bem colocou o senhor, houve esse
avanço com a introdução da urna. E com relação aos eleitor?
Muita gente questiona o comportamento dos políticos, quando
uma maioria busca o mandato para se esconder da Justiça. É
possível que na reforma política encontre-se um forma de
purificação desse processo?
R:
É preciso resguardar a democracia e seus custos . Quem
seleciona mandatários não é a Justiça Eleitoral, muito menos a
polícia. Quem seleciona os eleitos é o eleitorado. O que nós
temos é realmente uma triagem, mas com bases absolutamente
seguras. Já tivemos, durante o regime militar, o impedimento
de alguém ser candidato apenas porque denunciado. A
conseqüência é que os processos se montavam na medida das
conveniências do poder para impedir candidaturas. Isto é
impensável e não é função da Justiça Eleitoral como um todo.
E, realmente, não podemos ter saudades deste tempo. O estado
de direito tem os seus custos, um dos quais é a necessária
lentidão da justiça. Repressiva porque há de assegurar ao
cidadão todas as garantias. O Judiciário, globalmente
considerado, não pode se deixar pressionar por esta lógica da
punição imediata. É óbvio que vocês da comunicação são os
grandes responsáveis, porque em um tempo extremamente rápido
concluem pela condenação pelo menos moral, virtualmente
irreversível, em poucos dias, enquanto que a justiça tem de
apurar de verdade e sofre, evidentemente o peso dessa
comparação, desta certeza precipitada a que a opinião pública
é levada muitas vezes.
P: O Brasil assistiu ontem à renúncia, pela segunda vez, do
deputado Pinheiro Landim. Temos recebido perguntas de vários
ouvintes sobre quantas vezes um parlamentar pode renunciar.
Este é um defeito que vai exigir de nossos parlamentares uma
mudança para evitar que a eleição acabe sendo, muitas vezes, o
refúgio para que a Justiça não alcançe as pessoas que tenham
cometido algum erro?
R:
O grande salto disto se fez no fórum adequado, o Congresso
Nacional, com a reforma do instituto das imunidades. Hoje,
diminuíram muito as vantagens de conquistar um mandato
pensando numa imunidade, vale dizer, em garantir-se a falta de
licença da Casa para se resguardar de um processo por crime
comum. Isto não existe mais. Neste caso, nada tem a ver com a
Justiça Eleitoral. Expliquei ainda há pouco. Trata-se de um
cidadão com vários mandatos legislativos, objeto de uma
suspeita grave que está sendo apurado. A Câmara aprestou-se,
no mandato anterior, ao procedimento ético disciplinar,
causando a primeira renúncia. Agora, ante sinais que ia
ressurgir o processo nova renúncia. Até agora o mecanismo
funcionou. A Justiça Eleitoral não tem nada com isso. É um ato
que não se trata de um condenado, mas de um suspeito. A função
da Justiça Eleitoral se fez em poder dizer, com absoluta
segurança, que este cidadão teve os votos que o elegeram. Esta
é a nossa função.
P: Esses episódios denunciados pela mídia pode estimular a tão
esperada reforma partidária?
R:
Tive o prazer e a honra de conviver com certa intensidade,
sobretudo nos últimos anos de sua vida, com o presidente
Juscelino Kubistchek que dizia: esta reforma, chamada reforma
política em geral, é a mais difícil de todas, porque o
vitorioso na política não muda de métodos. Quem faz as leis é
quem foi eleito por este sistema e por isso teme alterar o
sistema. Mas, é claro, aos poucos vão sedimentando convicções
e exigências da opinião nacional que levam a mudanças
gradativas. Não acredito na normalidade do regime em mudanças
substanciais a um só tempo. Mas creio que vão amadurecendo
algumas perspectivas de mudanças. Creio, por exemplo, ao que
diz mais respeito ao processo eleitoral no adensamento da
idéia de financiamento público das eleições.
P: Voltando ao assunto eleições, com a tecnologia que a
Justiça Eleitoral detém estamos em vias de exportar o nosso
processo eletrônico de votação para outros países?
R:
Não temos esta preocupação de exportar como um dado de
orgulho, mas como um dado de solidariedade na construção da
democracia. Para isso estamos abertos à todos os países. A
nossa primeira experiência concreta se deu no Paraguai, em uma
experiência piloto com algumas centenas de seções eleitorais
com amplo êxito. No dia 27 de abril faremos com a tecnologia
da urna eletrônica cobrir mais de 50 por cento das eleições
gerais do Paraguai. Na semana passada recebi emissários da
província de Buenos Aires, a mais importante da Argentina, que
têm um projeto inicial de cobrir com urnas eletrônicas nada
menos que 1 milhão de eleitores, afora uma série de outros
projetos de experiências piloto em diversos outros países.
Ficamos orgulhosos porque a Justiça Eleitoral é a responsável
pelo desenvolvimento integral da tecnologia da urna
eletrônica.
P: O que o senhor pretende fazer para evitar o abuso do poder
econômico nas eleições?
R:
A Justiça Eleitoral tem feito o possível. Sempre disse que
seria ilusório, hipócrita, dizer que temos meios eficazes de
conter o abuso do poder econômico na medida que a opinião
pública gostaria que o fosse. Nós fazemos o que os mecanismos
da Justiça Eleitoral permitem. O avanço na prestação de
contas, por exemplo, foi sensível. Nas eleições majoritárias
isto já se refletiu numa evidente maior aproximação da
realidade das prestações de contas. Já não se pode falar, como
foi verdade durante muito tempo, que os partidos fingem que
prestam contas e a Justiça Eleitoral finge que acredita nelas.
Elas são cada vez mais significativas. Mas é óbvio que ainda
existe, sobretudo nas eleições proporcionais uma influência
indesejável do poder econômico. A minha opinião pessoal é
conhecida. Eu seria a favor de um sistema de financiamento
público da campanha. Ele tem dificuldades operacionais e
dificuldades políticas. Parto do pressuposto de que à Justiça
Eleitoral não cabe, pretensiosamente, oferecer fórmulas
prontas ao poder político, porque só o poder político pode
tomar as decisões necessárias à reforma ou às dificuldades de
toda a reforma política. Nós temos um imenso banco de
experiências, dados e disposição para dialogar com os
responsáveis pelos poderes políticos para encontrar a melhor
solução. É claro que esse é o grande desafio da Justiça
Eleitoral brasileira uma vez que nós podemos considerar quase
inteiramente superado pela história a fraude formal, a
manipulação de resultados de eleição. Hoje, as eleições
prestam com realidade o que foi o voto do eleitor. Agora como
se formou esse voto é o grande desafio de torná-lo cada vez
mais livre das influências do poder político e do poder
econômico. Este é um desafio contra o qual o mundo inteiro
ainda está muito atrasado e nós também. Vamos ver que passos
poderemos dar. Não haverá mudanças de um dia para outro. As
reformas políticas não se fazem assim, mas é preciso ir sempre
avançando.
|