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Título:
Lições do marketing político
 

Autor:

Chico Santa Rita
Jornalista, publicitário e consultor de marketing político.
É autor do livro Batalhas Eleitorais - 25 anos de marketing político.
 

Obras do Autor:

 

Batalhas
Eleitorais

 
 

 
Publicação:
Setembro, 2005
 

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Redação

Lições do marketing político

Participando dias atrás de um seminário internacional de Marketing Político na Universidade George Washington (GWU), em Washington-DC, foi possível entender, finalmente, o que aconteceu de fato na última eleição americana.

Para nós, no Brasil, pareceu surpreendente a derrota de Kerry, iludidos que estávamos pela mal-disfarçada torcida pela possível vitória do candidato democrata, cantada em prosa e verso por grande parte da mídia. Mas quando ouvi os depoimentos dos verdadeiros manejadores das duas campanhas, quando assisti aos comerciais de TV e rádio, quando conheci o grandioso trabalho de campo desenvolvido pela equipe do Partido Republicano, apareceu uma realidade que não vi contada por aqui.

Bush ganhou porque trabalhou profissionalmente. Durante o seminário, a palavra que mais ouvi, de todos os seus assessores, para definir o empenho no trabalho foi “disciplina”. Um ano e meio antes da eleição montou-se uma equipe de trabalho, completamente à parte dos afazeres da Casa Branca. A vida e a obra dos possíveis adversários foi sendo levantada e armazenada. O andamento da guerra era acompanhado com as armas miradas na eleição. A campanha descortinou uma linha de atuação e a seguiu persistentemente: Bush traria mais segurança para a população, diante do perigo do terrorismo. Os temas econômicos, tão presentes nas eleições anteriores, foram simplesmente minimizados. E, surpresa!, desmistificando o refrão eleitoral de que “quem bate não ganha”, uma linha de anúncios fazia ataques contundentes ao adversário: ele votou contra a guerra, mas agora é a favor; ele desprezou os hispânicos, mas agora quer o voto deles – bombas de efeito devastador. A opinião da população aparecia nas pesquisas internas, em todas as nuances da sua evolução. Na reta final sabia-se que o empate apregoado em outras pesquisas não existia de fato. Havia um absoluto conhecimento da situação, além do que os republicanos estavam motivados e mobilizados.

Kerry perdeu porque trabalhou amadoristicamente. A campanha começou a se desgastar na luta fratricida das primárias, contra o azarão Howard Dean. Pouco antes da convenção, o consultor de marketing foi trocado porque pregava que o candidato assumisse um discurso forte, de certo modo agressivo, ao contrário do que entendiam os cardeais democratas que achavam que ele deveria adotar uma linha light, com mensagens positivas. Achometro é o que não faltava: parecia uma típica campanha brasileira. Os temas escolhidos eram o posicionamento contra a guerra e a questão econômica, capitaneada pelo combate ao desemprego. Quando vieram os ataques do adversário, recomendou-se inicialmente que fossem ignorados, não se percebendo o efeito que eles causavam. E quando veio a reação, já era tarde demais. O voto dos pobres e o voto hispânico, tradicionalmente mais próximos dos democratas, foram conquistados pelo outro lado. Detalhe: enquanto os votantes de origem hispânica cresceram 56%, o crescimento geral da população fôra de 12%, desde a eleição anterior. Erros estratégicos misturavam-se com a confusão tática. Não havia uma linha de ação bem definida, não havia um discurso penetrante nos corações e mentes da população, não havia um candidato consistente.

A população queria a segurança que Bush oferecia, enquanto Kerry apostava na mudança. E o resultado final só não foi uma derrota acachapante porque o país é politizado e o voto partidário é extremamente significativo.

Foi isso o que se concluiu no seminário da GWU, organizado pelo departamento de pós-graduação The Graduate School of Political Management. E essa é a lição que pude tirar, como único profissional brasileiro da área presente: apesar dos narizes torcidos de boa parte da “intelligentsia” brasileira, o marketing político cada vez mais se estabelece como ferramenta indispensável para a construção de campanhas eleitorais, carreiras políticas, ou acompanhamento de governos. Feito com ética, seriedade e profissionalismo e não com a banalização que vem acontecendo no Brasil, onde qualquer publicitário, ou jornalista, ou simples curioso se apresenta como “marqueteiro”. Na pós-graduação da GWU há 300 alunos, com cerca de 100 formandos a cada ano. Nenhum brasileiro.

Os desacertos da campanha democrata foram reconhecidos pela própria Jeanne Shaheen, governadora do estado de New Hampshire por três vezes e coordenadora da campanha Kerry. No final da palestra dela veio a pergunta inevitável: “Então, a vitória de Bush foi uma vitória construída pelo marketing político bem aplicado?” Ela respondeu sorrindo: “Não tenho nenhuma dúvida disso, apesar de que, se Você fizer essa pergunta a Bush, ele responderá que a vitória foi dele”.
 

  

 
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