O prefeito de
Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), está recorrendo à
internet para pôr em prática um conceito próprio de
democracia direta. Enquanto se discute a facilitação ou não
dos dispositivos
que prevêem a realização
de plebiscitos e referendos no País, Pimentel, em seu
segundo mandato, inovou e tem utilizado a rede mundial de
computadores para chamar a população a se pronunciar sobre
temas específicos.
A primeira experiência
ocorreu no fim do ano passado. O chamado Orçamento
Participativo Digital contabilizou pouco mais de 500 mil
votos de eleitores na capital mineira. A votação definiu a
aplicação de R$ 20,3 milhões em obras na cidade, entre 2007
e 2008.

No exemplo acima, o resultado para a região da Pampulha
O resultado entusiasmou
Pimentel. Em janeiro, o prefeito vetou um projeto aprovado
pela Câmara Municipal proibindo a abertura do comércio aos
domingos e feriados e decidiu lançar uma consulta digital
sobre o tema. A idéia era mediar a disputa entre
comerciantes, favoráveis à abertura, e comerciários,
contrários.
Até o dia 5 de abril,
eleitores poderão utilizar a página da prefeitura na rede
mundial de computadores para opinar sobre o assunto. Uma
nova consulta já está engatilhada: a adoção ou não de um
rodízio de veículos na cidade. "A idéia da democracia
direta, que é o que a gente pratica quando faz esse tipo de
consulta, não deve ser excludente da democracia
representativa", observa Pimentel, se adiantando às
eventuais críticas por supostamente retirar poder do
Legislativo. "É um instrumento adicional, importante,
imprescindível, eu diria, que fortalece a democracia
representativa."
O endereço eletrônico da
prefeitura avisa que o resultado da consulta pública irá
contribuir para a elaboração do projeto de lei sobre o
funcionamento do comércio, que será enviado à Câmara
Municipal.
A justificativa foi a
necessidade de uma discussão mais profunda sobre o assunto,
que envolvesse além de empregados e empregadores do setor
comercial, também os consumidores.
Mas, ao contrário do
orçamento participativo, o tema atual despertou pouco
interesse. Até a última sexta-feira, haviam sido
contabilizados somente 10.291 votos, com ampla vantagem para
os interesses dos comerciários. A opção "funcionar nos
domingos que antecedem datas festivas/comemorativas (dia das
mães, dos namorados, dos pais, das crianças e Natal)" tinha
51,4% das preferências ou 5.293 votos.
É justamente assim que o
comércio funciona hoje. Outra alternativa, a de "funcionar
somente de segunda a sábado", contabilizava 32,7%, num um
total de 3.363 votos. Por fim, a opção "funcionar todos os
domingos e feriados, sem limites de horários" tinha apenas
797 votos, equivalentes a 7,74% do total. Mas a consulta
continua até os primeiros dias do próximo mês.
Influência
O cientista político Fábio
Wanderley Reis, professor emérito da faculdade de Filosofia
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alerta que o
resultado, apesar do universo bem pequeno ouvido na
consulta, pode contaminar o trâmite de um assunto no
Legislativo municipal. "Você cria uma santificação de algo
que é visto como correspondente à vontade popular", avalia,
em tom crítico.
Para Cláudia Volpini, da
Associação Comercial de Minas (AC Minas), a consulta carece
de base científica para que o resultado seja "compatível com
a realidade". Para ela, trata-se de "resultado inexpressivo
em termos populacionais", que não serve de base para o
prefeito tomar uma decisão.
Não é preciso procurar muito
para encontrar exemplo de distorção que a consulta pela
internet pode gerar. No caso da discussão sobre o
funcionamento do comércio, o sindicato da categoria tem
trabalhado para aumentar a participação de seus filiados.
O diretor do Departamento de
Imprensa e Comunicação do Sindicato dos Comerciários, Milton
Mathias Diniz, disse que a entidade mobilizou como pôde a
categoria. "Como a maioria dos trabalhadores não tem
computador, a gente tem buscado o pessoal para votar aqui no
sindicato", explicou. O fato de serem feitas pela internet é
uma "distorção evidente" das consultas de Belo Horizonte,
acredita o pesquisador Fábio Wanderley Reis. Para ele, a
amostra não é representativa da população, mas o resultado
do levantamento acaba sendo supervalorizado por conta do que
chama de "mitificação dos mecanismos de democracia direta".
O prefeito Fernando Pimentel
rebate o suposto aspecto "elitista" da idéia. "Alguém pode
dizer que eu estou falando de um segmento muito pequeno da
classe média. Não é verdade. Você vai na favela e está cheio
de lan house", disse, referindo-se às casas que alugam
computadores para jogos pela internet.
O prefeito faz uma concessão:
no caso de votações baixas, ele admite que o resultado não
expressa a opinião da maioria dos cidadãos. Mas isso não
tira sua crença no mecanismo de consulta. No caso do
rodízio, ele espera que ocorra uma espécie de plebiscito
digital. A consulta ainda depende de um estudo técnico sobre
o fluxo da frota da capital, que deve atingir 1 milhão de
veículos neste ano. "Chegando a sugestão técnica, vamos
ouvir a cidade pela internet", promete.